sábado, 27 de julho de 2013

HISTÓRIA DAS SALAS DE CINEMA EM LONDRINA

cinemadelondrina.blogspot.com.br

CINEMA: A ARTE DO ENCONTRO
por Rodrigo Prado Evangelista

Cine-Teatro Municipal      
Domingo, 12 de fevereiro de 2012, o Cine Teatro Universitário Ouro Verde, ou simplesmente Cine Ouro Verde é consumido por um incêndio, ninguém consegue explicar os motivos, as causas. Nos últimos anos era utilizado principalmente para apresentações de peças de teatro, assim como, da Orquestra Sinfônica de Londrina e outros espetáculos musicais. Em abril de 2010, aconteceu a última exibição de filme no Ouro Verde, foi a pré-estréia do Haruo Ohara (Rodrigo Grota, Brasil, 2010, 16 min). Uma sessão esporádica e exceção nos últimos anos, já que em 2002 o Ouro Verde deixou, oficialmente, de ser sala de cinema através de um decreto do Governo do Estado do Paraná. Mas já estava próximo do fim, assim como acontecia no Cine Vila Rica (1968-2001), o público havia diminuído intensamente, o que já era percebido nas décadas de 80 e 90. A televisão se propagou cada vez mais, surgiu as videolocadoras, outros veículos culturais e informativos apareceram como a internet. As salas de cinema passaram a fazer parte de shoppings centers. Mesmo o Cine Com-Tour/UEL, destacado pela programação elaborada com filmes incomuns no circuito comercial, está inserido em uma galeria comercial.

 Até a década de 1980, ir a uma sala de cinema significava encontrar pessoas, conviver com elas. Era um investimento social, que cada indivíduo realizava, de tempo, dinheiro, vaidade, desejo, expectativa, etc. Quem assistiu ao filme “Cinema Paradiso” (Giuseppe Tornatore, Itália, 1988), viu uma imensidão de pessoas que se encontravam cheias de afetações no cinema. Situação bastante parecida com o que era vivido em Londrina, o Cine Ouro Verde chegou a ter um público de 7 mil pessoas na década de 50, e não era a única sala da cidade, existia o Cine Jóia (1956-1975), que foi Cine Teatro Municipal, entre 1940 e 1955, o Cine Marabá (1940-1954), o único que não era no Centro, localizado na Vila Casoni, entre outros. Na década de 60, com a inauguração do Cine Augustus (1963-1981), a população londrinense foi a primeira do país que conseguiu ter acesso a filmes de 70 milímetros numa sala de cinema. Londrina também foi a primeira cidade do interior do país a presenciar um Cinerama (1968-1974), os filmes eram projetados numa tela com 23 metros de comprimento, 9,5 metros de altura e 146 graus. Difícil de imaginar, era uma experiência tão imensa, tão avassaladora, que era como se as pessoas fossem engolidas pela tela, fizessem parte da projeção. Intensamente envolvidas pelo cinema, os filmes faziam parte do cotidiano delas. Em outubro de 1973, é inaugurado o primeiro cinema em um shopping center, o Studio Com-Tour, o único da cidade que possuía um “fumódromo”, lugar onde as pessoas podiam consumir cigarro de tabaco e, simultaneamente, assistir o filme. Foi, também, a primeira sala de cinema, onde aconteceu a sessão da meia-noite, na qual eram exibidos filmes, considerados extremamente peculiares e incomuns no circuito comercial. O Studio Com-Tour deixou de existir em 1991, em 2005 foi aberto novamente, como Cine Com-Tour, desta vez dirigido pela UEL – Universidade Estadual de Londrina. Atualmente é um espaço bastante frequentado por cinéfilos: pessoas que são apaixonadas por cinema.
            Mesmo com o surgimento da tecnologia 3D, com a possibilidade de ver e sentir filmes em terceira dimensão, uma intensidade que já era ambicionada com o Cinerama (1968-1974), as salas de cinemas dificilmente conseguirão um momento mágico, um espaço fértil de encontro, potencializador de vidas, como já foram um dia. Com a expansão irreversível da televisão e o crescimento cada vez maior da internet, um desafio é configurado: como conciliar a amplitude do acesso a obras culturais e artísticas com momentos de convivência? Como encontrar espaços coletivos de afetação e sensibilização num cotidiano cada vez mais veloz e atropelante? Será que esse é um momento de crise? Para responder a essas questões a vida precisa ser reinventada.

Máquina de arroz, casa das primeiras exibições de cinema de Londrina (ficava na Rua Quintino Bocaiuva, ao lado de onde se instilou depois o Cine Londrina)

Máquina de arroz, a primeira sala de exibições. Na foto, o 3º da esquerda para direita é o Antonio Augusto Caminhoto, um dos fundadores da sala de cinema. Em 1934. Na marcha das inovações, Antônio Augusto Caminhoto foi duas vezes pioneiro do cinema, a primeira ao projetar filmes mudos no galpão da sua máquina de arroz, em 1934, na Rua Quintino Bocaiúva. Origem do primeiro Cine Londrina, depois Avenida. Sem nunca perder a ousadia, já era dono de uma rede de salas ao inaugurar em 19 de novembro de 1963 o Cine Augustus, o primeiro do Brasil com projeção em 70mm Todd-AO, inovação absoluta à época. 

        Cine-Londrina
  Cine Brasília, antes ocupado pelo Cine-Londrina.

      Cine Avenida (rua Quintino Bocaiuva)

Fachada do Cine Augustus
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Há que se fazer ainda a história das salas de cinema de Londrina. Há um trabalho importante, pouco acessível porque escrito em língua francesa, que associa as imagens cinematográficas à própria marcha civilizacional na Londrina dos ano 40 e 50. O seu autor é o professor de filosofia Volnei Edson dos Santos, e a tese defendida na Universidade Paris V se chama, traduzindo literalmente: "O Cinema: uma relação entre esquecimento e o presente (a experiência emocional de uma cidade com o cinema)". 
As histórias das antigas salas de cinema da cidade podem rememorar essa experiência emocional vivida pelos homens e mulheres que aqui estavam. Muitos deles estrangeiros, longe de casa, de sua própria cultura, língua e costumes. O cinema pra essa gente desterritorializada tinha um significado outro, sem dúvida nenhuma.
Entre as salas mais esquecidas da cidade, o Cine Londrina, que por um breve período  (1968-74) projetou seus filmes usando uma tecnologia chamada Cinerama. A tela era gigante e curva, 9 metros de altura por 23 de largura. O jornalista Apolo Theodoro, numa crônica publicada no site da Sercomtel, conta como foi a inauguração dessa super sala em Londrina.

Quando o ano novo chegou a expectativa aumentou e novamente não se falava outra coisa na cidade que não fosse a inauguração do Cinerama. Para atiçar a curiosidade, a vontade e o desejo da população, a Folha de Londrina de 31 de janeiro de 1968 publicou o esperado anúncio de inauguração numa foto legenda. A foto, com diversos tanques de guerra, vinha legendada com letras garrafais de exaltação:

O CINE LONDRINA ORGULHOSAMENTE APRESENTA, PELA PRIMEIRA VEZ NO INTERIOR DO BRASIL, SUPER CINERAMA, O MAIOR ESPETÁCULO DO CINEMA, UMA BATALHA NO INFERNO, COM HENRY FONDA, ROBERT SHAW, ROBERT RYAN, DANA ANDREWS E PIER ANGELI.

Finalmente no dia 7 de fevereiro de 1968, o prefeito José Hosken de Novaes e o bispo Dom Geraldo Fernandes, desatam a fita simbólica inaugurando o “novo” cine Londrina, agora Cinerama. Na frescura do ar condicionado, aproximadamente 700 pessoas, entre autoridades, imprensa e convidados, se admiraram ao ver pela primeira vez uma das mais luxuosas casas de espetáculos que Londrina já teve.
Só para lembrar, eram 1.100 confortáveis poltronas em degraus de 14 cm, modernas máquinas projetoras e uma enorme tela de 23 metros de comprimento por 9 de altura. Durante a projeção, não foram poucas as expressões de susto, alívio e muita risada. No dia seguinte, uma frase de repetia em todas as bocas: “Rapaz, que coisa de louco esse tal de Cinerama, dá a impressão que a gente tá no meio da guerra!”
Mas, nem as bênçãos proferidas por Dom Geraldo Fernandes, nem o sucesso dos primeiros tempos, foram suficientes para manter o Cinerama aberto. E, assim como os demais cinemas que existiam no centro da cidade - Jóia, Brasília, Augustus, Ouro Verde e Vila Rica - ele fechou suas portas, escancarando a penúria porque passava o cinema no Brasil que não conseguia competir com a nova mania nacional: a televisão.
No arquivo abaixo, um vídeo montado pelo escritor Carlos Ribeiro e postado no You Tube traz imagens e informações sobre sobre o Cine Londrina, que ficava na Avenida Paraná, onde hoje é o banco Itaú.

 

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